12.11.06

 

Despedida de um Amigo

Foi hoje entregue à terra que o viu nascer o corpo de um colega e amigo, que, na passada quinta-feira, havia sido acometido de um fulminante ataque cardíaco – enfarte – segundo a autópsia que lhe fizeram, sábado de manhã, acabou por determinar.

Morreu enquanto trabalhava. Terminou, assim, o seu ciclo de vida, a sua passagem por este mundo, como acreditam os cristãos, antes de meio século cumprido. Apesar de toda assistência que lhe prestaram, desde colegas, a pessoal médico do INEM e do Hospital, não foi possível fazê-lo retornar à vida.

Aos 49 anos, a vida despediu-se dele, ceifando-lhe todas as ambições, ilusões e esperanças.

Partiu cheio de apreensões : pelo sentido do mundo, pelo futuro dos filhos, pelo futuro da Democracia na era da Globalização, pela exequibilidade do País como Estado soberano, independente, pelo estado do Ensino, pela protecção social, pela assistência à saúde dos seus concidadãos, pela garantia das Reformas, pela exaustão dos combustíveis fósseis, pelas energias alternativas, pelo défice americano e pelo nosso, pela credibilidade perdida da Justiça, dos Partidos e da Política, pela importância da Ética nas relações humanas, pela iminência de uma guerra nuclear, etc., etc., etc. Tudo temas sobre que, amiúde, interessadamente conversávamos, com larga cópia de mútua concordância.

Já não debaterá, nem comigo, nem com mais ninguém, tanta ciência vã, tanta filosofia vaga, e o mundo seguirá o seu curso indiferente às suas apreensões.

Estava um lindo dia de sol morno, deste surpreendente verão de S. Martinho, dia sumamente aprazível, com aquela vista soberba ante nossos olhos, ali do alto do cemitério de Santarém, fronteiro às magníficas Portas do Sol desta nossa velha e altaneira Praça. Foi uma forma gentil que a Natureza encontrou de o receber no seu regaço, talvez procurando suavizar a brutalidade com que obscuros e caprichosos Fados abruptamente o haviam arrebatado dias antes.

Há pouco tempo, tínhamos estado a falar de Stefan Zweig, do seu trágico fim, a que se associou sua mulher, ocorrido no dia, para eles nefasto, de 22 de Fevereiro de 1942, na sua bonita casa de Petrópolis, Brasil, país que o seduzira e calorosamente o acolhera, na sua forçada fuga pelo mundo, quando a loucura nazi acometera também a sua formosa, antes pacata, pátria austríaca e devastava, então ainda triunfante, quase todo o continente europeu.

Em sentida homenagem a estes infortunados, aqui transcrevo uma das mais belas estrofes de «Os Lusíadas», a 106 do Canto I, que traduz, de forma sublime, toda a nossa permanente labuta pela vida e toda a fragilidade desta, na nossa condição de seres breves e indefesos perante a força bruta dos incógnitos Fados.

Zweig, que sabia português, traduziu estes impressivos versos do poema maior da nossa identidade colectiva, para a língua alemã e com eles mandou fazer uma iluminura, que depois remeteu a amigos e entidades, em cartões de Boas-Festas do Ano Novo de 1941, o penúltimo que haveria de festejar.

Leiamos, então, em memória destes nossos infelizes amigos, esta comovente estrofe, com o recolhimento que ela merece, pela meditação que encerra :


«No mar, tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida ;
Na terra, tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida !
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno ?»

AV_Lisboa, 12 de Novembro de 2006

Comments:
Oi! Estou retribuindo sua visita e seu comentário.
Muito obrigada pela atenção. Ainda não estou com tempo para voltar às funções do blog, mas estou bem, com a graça de Deus e espero que você também esteja. Até aqui,é um texto igual para quem estou visitando hoje (copiei/colei,
assim, ganho mais tempo para ler o máximo deste blog).
Agora, vamos ao comentário propriamente dito:
Em primeiro lugar, lamento a perda do seu amigo. Já notou como, atualmente, são os que têm menos idade que se vão mais rapidamente?
Belíssimo seu trabalho sobre a Língua Portuguesa, PARABÉNS! São textos preciosos os que escreveu abaixo, não é por coincidência que você escreve tão bem.
Mais uma vez, obrigada pela consideração que sempre demonstrou para comigo e perdoe-me se não retribuo como você merece.
(Não há, ainda, texto novo lá no meu cantinho).
MUITOS ABRAÇOS,
Ilmara.
 
Meu Caro antónio Viriato:
Que dizer a Alguém que perde um Amigo? conheço bem a terrível sensação. Procuremos ser dignos das Memórias Deles, o que para o Autor deste Blogue não implicará esforço algum.
Abraço.
 
Enviar um comentário



<< Home

This page is powered by Blogger. Isn't yours?